Porco-bravo


O caso é que anda um porco-bravo polo monte
vadiando no outeiro, argalhando o dia todo
Anda um porco bravo polo monte como se nada
Há um porco-bravo no monte,
Matou um homem e bebeu o seu sangue!
Axota-o, pilha-o,
Mata-o se puderes.
Gostaria bem poder ver esse porco-bravo.
E ver se ele pelejaria comigo.

Alá vos vem, através da uzeira de acolá
Abrindo o seu caminho entre carvalhos e freixos.

Jão lavrou um coitelo de madeira
Para tirar-lhe a vida ao porco-bravo.
Lutaram quatro horas seguidas num dia
Mas finalmente, o porco selvagem escapou

Seguiram aquele porco-bravo para a sua cova.
E encontraram os ossos de mil homens.

Das jãs


A jana, a jã e a joana?

J
ã é uma palavra do corunho para nomear à namorada, ou também equivalente a mulher.
No dicionário de Bernado Acevedo e Marcelino Fernández
as janas são definidas como: ... ninfas en las fuentes; son hermosas, tejen hilos de oro, protejen los amores y castigan la deslealtad en los amantes.

Nas Astúrias as xanas sao também seres feéricas ligadas às águas. Xana qualifica também à mulher afanosa, trabalhadora.
Xana dá nome a uma poça.
A palavra xana no asturiano tem estas outras formas: xania, inxana, xiana, siana, sana, injana, jiana.
Na Cantábria os nomes para esta entidade são: jana, jánara, anjana, enjana, ijana, onjana.
Na Cantábria rezava-se-lhes às janas. O anjanero era um mal, uma doença, devida a não fazer prezes às anjanas.


A destacar sana que pode conetar com o protoindo-europeu *sénas “senhora, anciã”. Atenda-se a que relatos sobre seres feéricas nesta terra têm como protagonista uma "senhorita" ou "senhora". A palavra senhorita na nossa época decodificamo-la como mulher jovem solteira, mas não em tempo recuados, na metade do século passado, a palavra senhorita em grande parte da Galiza rural podia ser dita para fazer referência a uma senhora ama de um paço, do mesmo jeito que senhorito.
Quero dizer que a forma sana asturiana conecta com senhora, o que leva a pensar que xana, pode estar a dizer senhora.
Nas Astúrias o home da xana é o xanu, menos conhecido, também qualifica à pessoa muito trabalhadora. Xanu que poderia ser parente de Jano?

Talvez outro tipo de divindade vinda a menos, pela superposição de um novo estrato religioso são as Almojonas do folclore português, que terão algo a ver com joanas, janas?

Na gíria dos telheiros jana significa período de tempo de uma hora, momento de uma hora, o que faz evidente a relação entre a jana com a diana.
*dyew é o proto-céltico para dia, que é escrito día no gaélico, no latim dies.

Então talvez uma *dyew-*vanna / *zia-vanus, ou mesmo dia-annus / dio-annus gerou o ianus latino?
Está aqui o antigo gaélico dían, (suposto *deino-s), com o significado de divinal, "deusám / deusão" e "deusana".
Ou estaríamos na mudança da consoante inicial do conceito de buraco:
vanus / vannus
fanum
hanus
janus
annus / anus

Seja como for estamos a falar das divindades do buraco, deusa e deus da porta?

Que é que dizemos quando falamos do Janeiro?



Estamos a falar do Ianuarius, Ianus latino?, ou da Jana / Jã, ou o mais oculto Jão?
Jana fazem-na derivar de Diana....
A língua latina não tinha os fonemas /ʃ/ ou /ʒ/ e conjunto variado dos agrupados sob o nome de chê vaqueira.
Não tem hipótese que o hodie latino gerou o hoje. E a Diana deu a Jana? Ou a língua latina escreveu Jana ao seu jeito como Diana?
Diana aparece consolidada como uma derivação da raiz dia, diva, deusa.

Os nomes das divindades são como bonecas rusas polidimensionais, vão, e quando vêm de volta transformadas, são consideradas já outras entidades diferentes. Haveria a possibilidade de que o *dio-annus *dia-anna indo-europeus gerassem o jano e a jana, e um deles voltou a Roma como Ianus.


A Jã e o Jão:
Atendendo a topônimos da Galiza que são Jão-tal: é pensado que fazem referência a um senhor de nome Jão / João.
Mas
nesta fenda que é aberta, algum Jão poderia estar a falar de outra cousa e não do nome próprio de um possuidor que deu nome ao lugar?

Jães na talassonímia:
Na zona da Torre de Hércules na Crunha destaca o microtopónimo: Jão-Rei / Jam-Rei que é a ponta oeste da entrada da praia do Areal, agora conhecida como praia das Lapas.
Na costa de Carinho um dos aguilhões ou ilhas do cabo Ortegal é chamado Cavalo-Jão, um pequeno ilhote ao leste do mesmo faro de Ortegal: Xandamón / Jandamom / Jão-damão.
Mesmo em Carinho ao norte do peirão, ao pé do castro, Ponta de Joana...
Que é que leva a dar nome do Jão ou Joana?
Também um leixão na ria de Camarinhas é chamado de Jão-Boi.
Em São Vicente de Ogrove: Jão do Outeiro.
Jão-Ledo em São Tirso de Porto-celo (Jove).
Jão-Velho em São Pedro de Joanzes (Jove).
Jão-toque / Jantoque em São Tiago de Tal (Muros) corresponde a uma aldeia e a um baixio.

Janrei é um tipo de rede de malha mui fina que é empregada na pesca do camarão, o nome está recolhido no Barqueiro.

Oannes foi uma divindade antiga suméria, pré-diluviana, chamado também de Adapa, no 4500-4000 antes de Cristo, fundador da civilização urbana e agrícola, do neolítico:




Seoane, Saane, Seivane...., estão relacionados com o João:
Com Seoane estamos à partida de algo assim como *san-iovane a explicar os seoane, seivane, savane...
Mas a partida pôde ter sido bem outra?

O proto-johannes, talvez neste território occidental dificilmente foi /iovanes/ e foi algo como /
ʃiouane/ ou /ʃouane/?

Siôn no galês, Seán no gaélico, Jehan no Francês antigo...., muitas grafias para o mesmo /ʃaŋ/ /ʒɑ̃/ /ʒɑ̃ŋ/.
Seán
no gaélico, o João, é pronunciado
/ʃɑːn̪ˠ/.
Mas
sean "velho", adjetivo e substantivo, também para dizer sênior ou senhor, é pronunciado
/ʃanˠ/.Este sean gélico sai da raiz do anteriormente escrito, do porotoindo-europeu *senos.

Outra cousa: Jão no galego é um qualquer, um minha-joia um pusilânime.
Também no galês Siôn é um homem representativo da gente comum, um zé-ninguém.

Mais:
....quando por este ocidente "chegam" com a história cristiana de Iovanne, existiria uma palavra "indígena" da mesma família que o senior latino, da raiz proto-indo-europeia que assoma no sâncrito सन (sána) velho?

Outros topônimos significativos:
As fontes Janares (São João de Cerdedo) também o pilão de
Jão Rei na mesma freguesia.
Jão Rei: Monte em Coristanco.
A Pena de
Jão Rodrigo, e os Travessos de Jão Rei (em Cerdido).
Jancalhado* (Jão-Calado) na Ponte-nova
O Agro de
Jão Rei em Dodro ou Lainho.
Cruz de Campo Janeiro na freguesia de Salto em Oça dos Rios.
Jandim (?) na freguesia das Maceiras em Doção.

Jão e as mámoas: mámoa de Jão-Rei no Alto-Gestoso (Monfero), com outra perto de nome São-Jão /Sanxán.

Quem é a Joaninha?
Também chamada de rei, rei-rei, reichim, casarrei...
Nas Astúrias: reireichínreisol, (entre os nomes referidos ao reinado).
Nestes dous escritos: "O ruler que anda de rule" e "Trás os Montes" é falada a relação entre a joaninha e a realeza.
Polo que lhe foi dado o nome de joaninha?
Por aleatoriedade?
Por dizer que era rainha, deusinha, senhorinha?





Reisol, nome asturiano da joaninha ajuda a decodificar o nome de papassol / papa-sol na Galiza, como papá do Sol, pai do Sol.
Entrando noutro aspecto da Jã e do João: como nai e pai do Sol, cristianizado como São João do solstício.
Um dito asturiano põe em relação algo mais que ideias:
El día de san Xuan salen les xanes a bailar.


Um dito ocitano ajuda a esclarecer isto:
Jan e Jan
parton l'an

"Jan (de verão), e Jan (de inverno) dividem o ano".
Falando-nos de Jano como Jan.

The Sun?
O sol inglês, o sol germano, sun fazem-no derivar de um protoindo-europeu *sh̥₂uén, do que também derivaria o galês huan.

Deus do céu: Júpiter.
Jupiter despeça-se em Jove pater, "pai Jove".
Jove que o relacionam com diove.
Pondo na mesma raiz o divino e o dia, o céu; como Diana e Jana.


O Preste João, das lendas medievais?, de onde Preste é do grego πρέσβυς, "o ancião". Sendo pois o ancião ancião?

Os Jães referenciais, ou cardinais:
No occitano é usado o nome de Jan d'Auvergno para falarem do vento do norte. Grafada Auvergne no francês, é uma região que fica ao norte na Occitânia, um dos sete condados históricos que a formam.
Também no occitano a estrela Sírio é dita Jan-de-Milan.
Milão fica ao leste da Occitânia, e a estrela Sírio é conhecida por assomar no horizonte leste durante o solstício de inverno.
Bastoun de Jan-de-Milan
, são as Três Marias, ou Três Reis na constelação de Orionte, pois seguindo a linha reta que formam estas três estrelas, no início das noites de inverno, em direção leste, está Sírio.
Este Jan como indicativo de orientação é explicado por uma corrupção do latim Juglans.
Iuglans latino é uma redução de Iovis glāns, glande de Jove, de Júpiter.
Mas como já foi vista acima a relação entre João e Jove, a tal corruptela do idioma ocitano semelha equivocado ser assim chamada.

Nas Astúrias: Xuan dá nome a diferentes personagens de contos e lendas, mas está muito associado com o vento: Xuan de la vara é um gênio do vento que sacode os castinheiros para que caiam as castanhas; Xuan de la empuxa, ou tão só Xuan dão nome ao mesmo vento.
Xuan Orito, Xuan Cabritu e Xuan Cabrita são nomes do Nuberu, um ser que havita as nuvens e dirige as trevoadas
Xuan de la borrina, Xuan Blancu,, Xuan de Madrugá,, Xuan de Riba, Xuan Barbudu, Xuan de la niebla dão nome a um ente ancião que trai a névoa, pode-se entrever entre ela acompanhado da sua mulher também barbuda e um cão peludo.
Xuan Canas é outro ser que habita nos poços, com ele mete-se-lhes medo às crianças, para evitar que vaiam a lugares perigosos. Xuan Canas é também chamado Xanu, o que poderia evidenciar a relaçao entre Janus a Jana e o João.

O João Rei como personagem do folclore, ou o que fica agochado nos restos da cultura infantil:

Dedim, dedim,
do teu borriquim,
quando o rei
por aqui passou
todas as aves
convidou,
menos uma
que quedou.
Chirlosmirlos,
vai-te deitar
às portinhas
de Jão Rei.
Ponte de ouro
para o mouro,
Ponte de prata
para a gata,
chucuruchi
que saias ti.

(Deste endereço: http://orellapendella.gal/dedin-dedin-2/, umas sortes recolhidas por Antón Cortizas, mudada a ortografia)

Dedim dedim do teu burrequim,
cando o rei por aqui passou,
moitas aves convidou,
menos unha que quedou,
chirlo, merlo vai deitar
à casinha de
Jão Rei,
cai a mesa cai a artesa
cai o rei coa sua grandeza.

Deste link, (modificada a ortografia).

Ambas as lengalengas, usadas para deitar sortes nos jogos infantis, fazem referência às portas e à casa de Jão Rei.
O rei não escolhe, esquece, não convida a uma das aves, o chirlo merlo, o chirlo merlo não escolhido vai para a casa do rei, (à sua tumba?).

Dedim, dedim, do teu borriquim,
quando o rei por aqui passou
todas as aves convidou.
Chirlo, mirlo, vai-te deitar
trás as portas do vilar.
Cai a mesa, cai a artesa,
cai o rei coa sua princesa.



Dedín, dedín,
do teu burriquín,
cando o rei
por aquí pasou,
todas as aves
convidou.
“Sólo” unha,
que quedou.
Chirlo mirlo,
vaite deitar,
ás portiñas
de San Xoán.
Cae a mesa,
cae a artesa,
cae o rei
coa súa grandeza.
Tece, tece,
“ghavilán”
¿Cantas “barillas”
ten un can?

Dedín dedín do teu burrequín 
cando o rei por aquí pasou
moitas aves convidou
menos unha que quedou
chirlo, merlo vai deitar
á casiña de Xan Rei
cae a mesa cae a artesa
cae o rei coa súa ghrandesa”.


Chirlo mirlo, vaite deitar
tras das portas do lugar;
Cae a mesa, cae a artesa,
cae o rei coa súa condesa.
Chucuruchí, que saias ti!


Dedim dedim
se llama Roquim
Maçaruca
Rabo de cuca
Cuando el Rei
por aquí pasó
todas las aves conquistó
menos una que quedó

Chirlo mirlo vai-te deitar
às portas onde eu te hei ir mandar


Dedín, dedín “se chama” Roquín,
rabo de rula mazaruca.
“Cuando” el rei por aquí pasou
todas as aves convidou
menos unha que quedou.
“Aquella fue”de gran pesar.
Chirlo mirlo, vaite deitar
á cama do rei sen che mandar.
Caeu a mesa, caeu a artesa,
caeu a dama coa súa condesa.
“Fuente de oro parió el moro
fuente de plata parió la gata”.
Chucurruchú Mamabrú que “duermes tu."

Talvez neste último o relato possa ser melhor percebido, atendendo também a que chirlosmirlos aparece na literatura em espanhol do renascimento, como uma ave imaginária, que uma mulher manda ir caçar ao seu home, para assim ter com outro.

Esta não escolha de uma das aves faz cair o reino, cai a dama, cai a condessa, cai a mesa, cai a artesa...
Dando uma dica mais para a possível relação totêmica entre o rei e as aves?
O relato que entendo está em retalhos nas lenga-lengas dos chirlos-mirlos poderia ser da matéria de Bretanha: com Morgana a c
hirlosmirlos, Ginevra como a dama que cai, e Artur como o Jão rei.

Interpretação:
Morgana é uma druidessa, uma sábia, também fada, uma arcaica fea, que mora em Avalon, com as suas outras oito irmãs, (número nove feminino). Todas elas com atributos de aves, com a capacidade de voarem.
Jão rei, faz um convite, (para a voda entre Genevra e mais ele?), mas não convida a Morgana, que sente um grande pesar por isto, e sim às suas outras irmãs, aves.
Morgana vai até a casa do Rei, talvez até o túmulo familiar ao que por serem filhos da mesma nai pertencem, cai na sua porta...
Morgana acaba deitando-se com Artur metendo-se no leito dele (vai-te deitar à cama do rei sem che mandar). Ginevra sabe do acontecido e cai (cai a dama), cai a sua condesa, (Morgana é ama de honra de companhia de Genevra), cai a mesa, (a tal "távola redonda"), cai a artesa, (a arca, a riqueza), o reino cai.

Morgana uma jana que tem de ave o chirlomirlo?
Na tradição galega chirlo-merlo é nome dado ao estorninho, por ser como um merlo que chirla, também ao merlo mesmo, e à laverca.
O chirlomirlo é no espanhol entre outras cousas o melro-de-peito-branco (Turdus torquatus).
Merlim, é dito que muda em falcão ou gavilão, gavião que aparece numa das lenga-lengas: Tece, tece,“ghavilán".
(Melim trabalha, para lograr manter o reino).
Merlim, como o seu nome indica, é um merlo pequeno, ou um merlo querido.
Merlim e Morgana são os máximos feiticeiros do reino, os dous merlos, também amantes nalguma altura.


Merlo-papobranco, Tudus torquatus,

Polo quê é qualificado de chirlo o merlo?
Polo seu canto similar ao do merlo comum, mas mais agudo, mais chirlão, como podemos comprovar acessando aqui: Xenocanto merlo-de-colar.

Estamos diante de deusas e deuses, rainhas e reis antigos, chamados de senhoras e senhores, de jãs e jães /jans, que as diferentes camadas culturais ocultaram?
Rei Artur decadente que acabou degredado, vagabundo num João qualquer?
Num:
Jão Perilhão,
a cavalo dum cão;
o cão era coxo,
tirou-no num poço;
o poço era frio,
tirou-no num rio;
o rio era brando,
tirou-no num campo;
o campo era duro,
rompeu o bandulho.

- Lenda da Cova de Jam Rei em Palmeira.